A inteligência artificial já ocupa um espaço central nas discussões sobre produtividade, escala e transformação no mercado jurídico. No programa Capital e Mercado, da BandNews, Marcela Moysés, CEO e cofundadora da DD8, falou ao jornalista Marco Antonio Sabino sobre os avanços da IA generativa no setor.
Ao longo da entrevista, Marcela mostra como a combinação entre expertise jurídica e inteligência artificial vem transformando a análise de informações e a tomada de decisão em operações complexas no Brasil. Esse movimento ganha contornos mais concretos em etapas intensivas em documentos, como due diligence e auditorias jurídicas, frentes centrais da atuação da DD8 em contextos como M&A, private equity, negociações imobiliárias, falências, recuperação judicial e outras operações de alta complexidade.
Assista à entrevista na íntegra:
Due diligence, volume documental e pressão de prazo
A due diligence sempre foi uma atividade intensiva em volume documental e, na última década, essa escala aumentou significativamente. Operações que antes envolviam centenas de documentos hoje chegam com data rooms contendo milhares de arquivos. Ao mesmo tempo, o mercado acelerou, os prazos encolheram e as equipes jurídicas, em muitos casos, permaneceram do mesmo tamanho. Nesse contexto, a IA passa a responder a um problema concreto do mercado: como analisar mais, em menos tempo, sem comprometer a qualidade técnica da leitura.
Marcela destaca que um deal de médio porte pode envolver entre 5.000 e 15.000 documentos, enquanto o prazo médio de negociação gira em torno de 90 dias. Em setores regulados, o volume e a complexidade tendem a ser ainda maiores. A CEO da DD8, que trabalhou por mais de 15 anos como advogada em operações de M&A, descreveu como o processo de due diligence era baseado em esforço intensivo, revisão manual e longas jornadas para cumprir o prazo, relembrando a realidade exaustiva da profissão antes da adoção da inteligência artificial:
“Era feito 100% manualmente, em muitos casos imprimindo centenas de contratos e grifando com marca-texto, virando noites e fins de semana para dar conta do prazo. Esse prazo normalmente é extrapolado por conta desse volume que humanamente é impossível fazer em pouco tempo.”
Marcela Moysés, CEO da DD8
Grandes escritórios ainda conseguem, em alguma medida, alocar dezenas de advogados juniores para absorver essa demanda. Já escritórios médios e pequenos, que representam boa parte do mercado brasileiro, muitas vezes não dispõem dessa estrutura. O resultado são análises por amostragem em contextos heterogêneos, riscos não identificados, decisões tomadas com informação incompleta e um esforço operacional elevado para consolidar os achados entre as diferentes áreas de prática envolvidas na operação.
A advogada reforça que o gargalo não está na competência jurídica, mas na desproporção entre a massa de informação envolvida nessas operações e a capacidade de uma equipe especializada de absorver esse material com segurança, consolidar os pontos relevantes e, a partir deles, formular uma leitura jurídica estratégica capaz de orientar o cliente da melhor forma.
Na prática, ainda na triagem manual, antes mesmo da análise aprofundada, parte dos riscos pode se perder, não por negligência, mas por inviabilidade operacional. Além disso, o esforço exigido por uma análise minuciosa, que envolve múltiplas áreas e a consolidação dos achados, acaba consumindo o tempo que deveria ser dedicado à estratégia da negociação.
IA jurídica e ampliação da capacidade analítica
Um dos pontos mais diretos da conversa foi sobre o tipo de trabalho que a tecnologia elimina. “O que a IA corta é justamente esse trabalho que é massivo, repetitivo, não tem valor agregado e que dificilmente vai conseguir ser cobrado no final da negociação”, afirmou Marcela.
A distinção, porém, não se resume à automação de tarefas operacionais. O ponto central é que a IA não substitui o advogado, mas amplia sua capacidade analítica. A leitura crítica dos riscos, a definição da estratégia da operação e a condução da negociação continuam dependendo de experiência jurídica, julgamento e contexto. O problema é que, com o aumento do volume documental e a compressão dos prazos, uma parte significativa do tempo de profissionais especializados passou a ser absorvida por tarefas anteriores a essa camada estratégica, embora indispensáveis para que ela aconteça com qualidade.
Com a DD8, o ponto de partida da análise muda. Em vez de consumir grande parte do tempo em triagem, organização e consolidação manual de documentos, a equipe passa a atuar sobre uma base estruturada, com achados organizados e insumos analíticos consistentes e contextualizados à operação. A tecnologia atua sobre grandes volumes documentais, cruza informações, estrutura achados e entrega matriz de risco, sumário executivo e lista de pendências, elevando o nível da análise desde as etapas iniciais do trabalho. Com isso, os especialistas passam a dedicar mais energia ao que efetivamente exige interpretação, priorização e estratégia.
Confiança, rastreabilidade e revisão humana
No setor jurídico, a adoção de novas tecnologias é naturalmente mais criteriosa, e por boas razões. Não se pode abrir mão do rigor, da responsabilidade e da confiabilidade dos resultados. Por isso, qualquer ferramenta de IA aplicada ao Direito precisa enfrentar uma questão central: como gerar confiança na análise produzida? A pergunta é legítima, especialmente em operações nas quais um risco não identificado pode comprometer transações de centenas de milhões de reais.
Na entrevista, Marcela explica que a resposta da DD8 a esse desafio passa, entre outros pontos, pela rastreabilidade. “Fizemos questão de trazer uma ferramenta que dá a chance do advogado revisar cada uma das citações, cada uma das informações que são geradas pela IA. Basta clicar no link da fonte e ele é levado direto para a página, para o parágrafo do documento original”, afirmou.
Esse mecanismo altera a relação entre o advogado e a análise produzida pela tecnologia. Em vez de uma caixa-preta que gera conclusões sem origem verificável, a ferramenta opera com referência direta à base documental, permitindo que cada achado seja confirmado, contestado ou aprofundado. “Fizemos questão de colocar o advogado no loop. Ele é o revisor final, é ele que vai criar estratégia em cima de tudo que foi trazido”, complementou a CEO.
Capacidade de processamento em análises de grande escala
Por trás da capacidade de analisar grandes massas documentais com consistência, existe um desafio técnico real. Em muitos contextos, como falências com dezenas de milhares de páginas ou data rooms com grande volume de arquivos, não basta que a IA “leia” documentos, ela precisa conseguir processar esse material em escala sem perder coerência analítica ao longo da análise.
É nesse ponto que entra a questão da janela de contexto, ou seja, a quantidade de informação que um modelo consegue processar de uma vez. Mesmo modelos de linguagem de ponta operam com limites que podem ser excedidos em operações complexas. Quando isso acontece, a saída mais comum é fragmentar os arquivos, o que pode comprometer a continuidade da leitura e gerar inconsistências entre diferentes partes da análise.
Na entrevista, Marcela explica que a DD8 buscou enfrentar esse limite com tecnologia proprietária. “Nós extrapolamos essa barreira com um código proprietário em que conseguimos analisar 3 milhões, 10 milhões de tokens. Por isso, uma falência de 50.000 páginas não é um problema para a DD8. É só o usuário arrastar, ele não precisa ficar quebrando em vários arquivos”, disse.
IA jurídica pensada para a complexidade brasileira
A entrevista também abordou a posição da DD8 no mercado global de legal tech. Embora já exista interesse de escritórios em Portugal e Espanha, a prioridade segue sendo o Brasil, por uma razão estrutural que vai além da proximidade cultural.
“O Brasil tem um advogado para cada 164 habitantes, tem 82 milhões de processos parados. É um dos maiores mercados jurídicos do mundo. Somos um dos maiores mercados jurídicos do mundo e que precisa de soluções para lidar com massa”, disse Marcela.
Mais do que um mercado grande, o Brasil reúne volume, complexidade regulatória e necessidade de respostas conclusivas em um grau que torna a aplicação de IA jurídica especialmente relevante. É nesse contexto que a DD8 constrói sua atuação: não a partir de uma lógica genérica de automação, mas das exigências concretas da prática jurídica brasileira. E uma ferramenta generalista global tende a não alcançar, aqui, a profundidade que operações complexas exigem.
Esse ponto merece atenção. Ferramentas de IA genéricas podem conhecer a legislação, mas conhecer a letra e saber conduzir uma due diligence são coisas diferentes. A segunda exige entender quais documentos precisam ser analisados, quais deles efetivamente trazem informação relevante para determinado tipo de operação, quais riscos se manifestam de formas não óbvias em documentos societários e quais lacunas em um data room indicam um problema real.
“Uma coisa é decorar a legislação societária aqui no Brasil, outra coisa é saber negociar um contrato de compra e venda de cotas e todas as nuances. O que nós codificamos foi a prática jurídica mesmo, o como fazer”, explicou a CEO.
IA jurídica além da pauta de inovação
A inteligência artificial aplicada ao trabalho jurídico complexo deixou de ocupar apenas o espaço da inovação. Em operações intensivas em documentos, pressionadas por prazo e marcadas por alto grau de responsabilidade, ela passa a ter um papel cada vez mais concreto na ampliação da capacidade analítica das equipes e no apoio à tomada de decisão.
Esse movimento interessa diretamente a quem estrutura operações, conduz negociações e precisa lidar com risco, prazo, execução e profundidade técnica em contextos de alta complexidade. É nesse ponto que a IA jurídica deixa de ser um tema periférico e passa a integrar, de forma prática, a dinâmica do mercado.